A SITUAÇÃO DA IGREJA HOJE (PARTE 2)
Enviado em 1 de Dezembro de 2009
Publicado por Pr Leandro

Por Leandro Antonio de Lima
Uma mensagem revolucionária se fez ouvir em meio às trevas do primeiro século na voz daqueles evangelistas que atravessaram continentes proclamando que um homem havia vencido a morte e tinha uma vida muito diferente para oferecer.
A mensagem de esperança do Novo Testamento se estende através de cada página, dos Evangelhos ao Apocalipse, repercutindo que a vida humana não é vazia e sem sentido, mas cheia de propósito e possibilidade de renovação. Como diz Hörster, “em todos esses escritos existe um tema central: Deus se volta à humanidade por meio de Jesus Cristo” . Essa é a mensagem da Igreja, tão relevante para o primeiro século, como para o mundo relativista de hoje. Um tema “extremamente atual numa época em que o homem está sufocando em seus próprios problemas e não consegue se salvar somente com a sua inteligência. Nada é tão urgente hoje como o encontro do ser humano com Deus, que se aproximou de nós por meio de Jesus Cristo. Os escritores do NT têm o objetivo de levar os seus leitores a esse encontro” . Esse encontro pode transformar suas vidas, levantá-los do pó e dar uma razão digna para sua existência. João deixou claro que esse foi seu objetivo, pois ao finalizar seu Evangelho, ele explicou: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Aqui está a grande promessa para aqueles que estudam o Novo Testamento. É uma promessa de vida e de esperança.
O período pós-apostólico
Desde sua fundação, a igreja se preocupou em entender o Novo Testamento, pois o considerava o legado de Jesus e dos Apóstolos. Ao mesmo tempo em que se entendia que era uma continuação do Antigo Testamento, havia a compreensão de que ele continha as novas coisas necessárias para o tempo da nova dispensação. Ainda nos tempos primitivos, quando as cartas de Paulo e os evangelhos sinóticos circulavam pelas igrejas recém fundadas, os cristãos preocupavam-se em entender o sentido verdadeiro do texto. Embora o Cânon do Novo Testamento tenha levado quatro séculos para se tornar algo oficial , os 27 livros do Novo Testamento já eram reconhecidos como providos de autoridade e inspirados até meados do segundo século no máximo. Alguns discípulos dos apóstolos e outros líderes que se levantavam na igreja pós-apostólica preocupavam-se em estudar os textos originais, produzindo comentários e textos explicativos sobre os livros do Novo Testamento. Teólogos - como Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino o mártir, Irineu de Lião, Tertuliano e Agostinho de Hipona - se debruçavam sobre o texto sagrado herdado dos Apóstolos e procuravam explicá-lo para os cristãos e para os inimigos do cristianismo nos primeiros séculos. O trabalho apologético dos pais da igreja contribuiu muito, não só para o estabelecimento do Cânon, como para o entendimento da mensagem da Igreja contida nas páginas dos escritos apostólicos.
O período medieval
As coisas começaram a mudar no quarto século. No tempo do Imperador Constantino, que supostamente se converteu ao cristianismo, o império foi cristianizado. Não foi uma cristianização pela pregação, mas pela força. Se antes alguém era perseguido por ser cristão, a partir daí recebeu privilégios, e a perseguição acabou se dirigindo contra os pagãos. Isto causou uma verdadeira invasão do paganismo no cristianismo e o sincretismo dessas religiões. Os pagãos se tornaram cristãos sem abandonar seus costumes pagãos. O maligno perseguiu a igreja por quatro séculos, praticamente ininterruptamente, e seus resultados foram mínimos, pois o sangue dos mártires tornava-se a semente da igreja. Então, ele resolveu se infiltrar nela, e seus resultados se multiplicaram ao infinito. Patrocinadas pelo poder imperial, as igrejas abandonaram a herança bíblica e a simplicidade do culto. Se antes se cultuava em lugares simples e escondidos, então, começaram a levantar imensas construções cheias de arte e ornamentações. A pureza e a simplicidade do Novo Testamento se perderam com a absolutização romana da igreja, os dogmas foram substituindo o estudo aprofundado da Escritura sagrada, e por mais de mil anos, a igreja sobreviveu de misticismo e ascetismo monástico, bem como de dogmatismo teológico e filosófico, mergulhada numa quase completa ignorância do texto bíblico. A igreja medieval sobreviveu à custa da ignorância das pessoas e sustentada pelo poder da espada.
O período da Reforma
O movimento da Reforma - antecedido pelos pré-reformadores John Wycliffe e John Huss, que lutaram para que a Bíblia voltasse à língua do povo - e consolidado pelos grandes reformadores do século XVI Lutero, Zuínglio e Calvinocaracterizou-se por um retorno à Bíblia, e especialmente ao Novo Testamento. Os teólogos daquele período voltaram sua atenção para a Bíblia, interpretando-a dentro de seu próprio contexto, respeitando suas peculiaridades como língua e ênfases individuais de seus escritores. Na Reforma uma importante concepção teológica foi modificada em relação à Bíblia. Para a igreja romana medieval a igreja tinha autoridade sobre a Bíblia, pois ela mesma teria originado a Bíblia. Os reformadores inverteram essa concepção dizendo que a Bíblia era a formadora da igreja, e, portanto, era a Bíblia quem tinha autoridade sobre a igreja . Por isso Lutero traduziu a Bíblia para a língua do povo e Calvino procurou fazer comentários de todo o texto bíblico (exceto 2 e 3 João e Apocalipse). Por esta razão vemos na Reforma o ideal da teologia. Não por um senso de saudosismo ou culto do passado, mas pelas atitudes concretas de teólogos que romperam com conceitos inaceitáveis e tiveram a coragem de lutar por aquilo que acreditavam e que realmente revolucionou suas vidas e influenciou poderosamente o mundo de seus dias. Quantos teriam a coragem, como Lutero, de sustentar diante de uma instituição tão poderosa como a igreja romana a verdade do Evangelho, sofrendo com isso todo tipo de ameaças e imprecações? Quantos teriam coragem como Calvino de colocar em xeque suas convicções e seu desejo de afastamento para trabalhar na formação de uma cidade que refletisse o ideal do Evangelho?








